segunda-feira, 26 de junho de 2017

Onde quer que vá carrego sempre comigo um anel. É um anel simples, prateado sem grandes detalhes e não há nada que o distinga dos outros anéis.
Encontrei-o à uns meses na rua, não dei muito importância mas captou a minha atenção. Era uma tarde em que tinha estado sol, mas no entanto começou a chover, estava a tentar fugir da chuva e quando olhei para o passeio molhado vi algo a brilhar, vi o anel molhado. Era como se alguém tivesse acabado de o deixar cair, estava intacto no chão. Curioso, pois andava à procura de um anel e não conseguia encontrar nenhum de que gostasse ou que coubesse nos meus dedos, com tudo este anel foi perfeito.
Tentei imaginar imensas vezes de quem pertencerá, ou o que terá acontecido para deixarem no cair.
Quando seguro o anel, quando brinco com o anel entre os dedos, penso imensas vezes se alguém sentirá a sua falta, se seria importante para alguém. Porém, neste momento é especial para mim, ajuda me a pensar no que irei fazer e acima de tudo faz me companhia. 
No inicio tentei utiliza-lo como anel da sorte, mas depois vi que ter sorte não é algo que dependa de um objecto, continuo a utiliza-lo todos os dias, porque apesar de ser um anel simples para mim é um anel especial.

sábado, 24 de junho de 2017

Às vezes a imaginação é menor, não se pode imaginar todos os detalhes.
Por exemplo, estou deitada no chão do quarto, vejo a cor das paredes e ao olhar para a janela, o sol está se a pôr. Isto são pequenos detalhes em que a imaginação não consegue alcançar a autenticidade do que aconteceu, pois nesse momento a cor do fim de tarde está a entrar pela janela com uma ligeira brisa no ar, que acompanha o anoitecer. Nesse instante, sou outra pessoa com uma diferente maneira de ver, às vezes essa outra pessoa é apenas uma recordação má ou então é um nada, acabo por ser uma máquina que fala e responde a outras pessoas.
Às vezes a outra pessoa somos nós, o que basicamente faz com que não haja maneira de saber o que irá acontecer, porque sermos nós próprios é complicado, é único.
No entanto, é uma ideia que pode permanecer durante muito tempo, um lugar vazio em que não existe apas uma ideia mas sim um conjunto de ideias e um conjunto de outras pessoas com uma noção de imaginação maior. O que pode existir durante muito tempo ou pode apenas durar alguns segundos, aqueles segundos em que estou deitada no chão do quarto a sentir a brisa a percorrer a minha face, o que alcança o limiar do esquecimento e nesse momento sou outra pessoa.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Esta hora foi ganha à noite.
Acertei a hora de todos os relógios há minha volta, da cozinha, da sala, do micro-ondas e se tivesse um relógio de pulso faria o mesmo. Esta hora é a hora mais preciosa da terra, é como se a lua se apodera-se do mar, como se o mar fosse infinito como o universo. Sim, agora é a hora em que as estrelas brilham e há aquela “claridade” em que tudo nos faz pensar. És tão bonita. Precisávamos de mais noites assim. Obrigada noite, pelas estrelas brilhantes, pela bonita lua e pelo precioso mar. Obrigada por esta hora.
Do outro lado existe uma cidade, existem pequenos sons ligeiramente irritantes, existe uma coisa invisível que paira pelo céu até pousar nos contornos da cidade. Aqui, exatamente aqui, neste lugar escuro e sem cor, conseguimos ver a realidade. A diferença e o que desprende o mar da cidade, a lua do sol…Mas no entanto continuamos deitados aqui sem saber o dizer. Sim, esse silêncio a que me refiro é aquele.
Quando estamos a observar as magnificas estrelas, ou simplesmente quanto estamos a ler.
Quando tenho um livro e tu tens outro. É esta a hora que ninguém nos conseguirá interromper, esta é a hora perfeita em que respiramos ao mesmo tempo, que estamos em perfeita harmonia. Não há um fluxo de palavras que entopem a nossa mente. Não há pressa, são palavras simples e não frias. Enchemos as nossas mentes de sentidos e realidades diferentes. Mas no entanto acreditamos no que somos e no que deveríamos ser, sabemos que eu sou a lua a brilhar no mar e tu és os contornos da cidade, tu completas-me de uma maneira incompensável.
De um momento para o outro, talvez de repente. Caí inteira dentro de uma folha que eu própria escrevia. O meu corpo, a minha alma, a minha mente…Tudo o que cresceu em mim estava naquela folha que se transformou devagar no corpo de uma pessoa desconhecida, atravessou palavras e palavras.
O corpo descobriu e encobriu palavras.
Olhei para essas palavras que acabavam por formar um céu. Com segredos desnecessários, com vinganças guardadas, foi óbvio para mim encontrar tantas certezas mas ao mesmo tempo tantas incertezas.
As palavras eram inalcançáveis e continuavam estendidas até ao horizonte.
Era como se tivessem construído uma prisão, com tudo aquilo que julgava ser perfeito e que poderia libertar-me. No entanto era uma mera ilusão. Descobri, tarde demais, que os muros que existiam eram uma mera ilusão, mas descobri e era tarde demais.
 Iria lamentar-me para o resto dos dias. Por não imaginar o suficiente. Por não imaginar como libertar-me destas imensas palavras, que despiam a minha alma e deixavam-me completamente desprotegida. Mas no entanto nenhum lamento era realmente verdadeiro.
Nenhum lamento descrevia-me. Tudo o que sou.
Palavras, belas e formosas palavras que escrevi. Palavras que serão esquecidas e apenas restará perguntas: Como acabou? Quando acabou? Onde acabou? Apenas quererão saber do fim. E dessas perguntas, sim essas perguntas impossíveis de responder. Impossíveis de recordar. E eu? Eu irei sair desta folha, confusamente verdadeira, a caminhar com um ritmo constante. Lento mas constante. Conseguirei ser capaz de sair a caminhar, sair pelos meus próprios pés. Não muito depressa, pois basta saber que a loucura da minha vida está nessa direção, por isso vou no meu ritmo. Um ritmo constante até encontrar-me.
Porque no fim é a vida real.
A minha vida real, com dor e saudade. Com sentimentos por recordar. É assim a minha vida, previsível, embora humana.
Sou uma humana incompletamente completa, sou um puzzle com peças incrivelmente estranhas…E de longe. Bem longe continuo a escrever. Cada palavra sobre o tudo e o nada. Sobre uma folha. Uma folha em que cai inteira e agora. E Agora tem o meu corpo, a minha alma e a minha mente gravadas.
Pois cada palavra é uma tentativa de aproximar-me dos contornos destas memórias. Cada palavra tem aquela certa pureza e inocência, porque esta sim, é a única maneira que sei, a única maneira que tenho. Escrever é a pureza e inocência da minha alma.
Da minha mente.
Da minha vida real.