De um momento para o outro, talvez de repente. Caí inteira dentro de uma folha que eu própria escrevia. O meu corpo, a minha alma, a minha mente…Tudo o que cresceu em mim estava naquela folha que se transformou devagar no corpo de uma pessoa desconhecida, atravessou palavras e palavras.
O corpo descobriu e encobriu palavras.
Olhei para essas palavras que acabavam por formar um céu. Com segredos desnecessários, com vinganças guardadas, foi óbvio para mim encontrar tantas certezas mas ao mesmo tempo tantas incertezas.
As palavras eram inalcançáveis e continuavam estendidas até ao horizonte.
Era como se tivessem construído uma prisão, com tudo aquilo que julgava ser perfeito e que poderia libertar-me. No entanto era uma mera ilusão. Descobri, tarde demais, que os muros que existiam eram uma mera ilusão, mas descobri e era tarde demais.
Iria lamentar-me para o resto dos dias. Por não imaginar o suficiente. Por não imaginar como libertar-me destas imensas palavras, que despiam a minha alma e deixavam-me completamente desprotegida. Mas no entanto nenhum lamento era realmente verdadeiro.
Nenhum lamento descrevia-me. Tudo o que sou.
Palavras, belas e formosas palavras que escrevi. Palavras que serão esquecidas e apenas restará perguntas: Como acabou? Quando acabou? Onde acabou? Apenas quererão saber do fim. E dessas perguntas, sim essas perguntas impossíveis de responder. Impossíveis de recordar. E eu? Eu irei sair desta folha, confusamente verdadeira, a caminhar com um ritmo constante. Lento mas constante. Conseguirei ser capaz de sair a caminhar, sair pelos meus próprios pés. Não muito depressa, pois basta saber que a loucura da minha vida está nessa direção, por isso vou no meu ritmo. Um ritmo constante até encontrar-me.
Porque no fim é a vida real.
A minha vida real, com dor e saudade. Com sentimentos por recordar. É assim a minha vida, previsível, embora humana.
Sou uma humana incompletamente completa, sou um puzzle com peças incrivelmente estranhas…E de longe. Bem longe continuo a escrever. Cada palavra sobre o tudo e o nada. Sobre uma folha. Uma folha em que cai inteira e agora. E Agora tem o meu corpo, a minha alma e a minha mente gravadas.
Pois cada palavra é uma tentativa de aproximar-me dos contornos destas memórias. Cada palavra tem aquela certa pureza e inocência, porque esta sim, é a única maneira que sei, a única maneira que tenho. Escrever é a pureza e inocência da minha alma.
Da minha mente.
Da minha vida real.